top of page

De Platão ao "Batidão": O que o som das praias revela sobre nossa civilização...

A relação entre a música e a inteligência humana não é um tema novo; na verdade, é uma das discussões mais ancestrais da nossa cultura.


Se pararmos para analisar o impacto dos sons em nossa psique, perceberemos que a música é muito mais do que um simples entretenimento: ela é uma ferramenta de construção — ou de erosão — do caráter humano.


Platão, um dos pilares do pensamento ocidental, deixou um alerta que atravessa os milênios:


“A música é o meio mais poderoso do que qualquer outro, porque o ritmo e a harmonia têm sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação.”


Para os filósofos da Grécia Antiga, como Platão e Aristóteles, a educação ideal repousava sobre dois elementos fundamentais: a ginástica para o corpo e a música para o espírito.


Em sua obra A República, Platão defendia que o equilíbrio estrito entre esses dois pilares evitava que o indivíduo se tornasse excessivamente bruto ou excessivamente sensível. Para eles, a música não era um acessório, mas o alicerce da ética.


É sintomático — e ao mesmo tempo preocupante — perceber que as tendências musicais rejeitadas por Platão em seu tempo são exatamente as que dominam o nosso.


Ele alertava contra ritmos associados a ritos sensualizados e desregrados, por entender seu efeito embrutecedor sobre a alma.


Hoje, vemos esse fenômeno materializado de forma caótica em nossas praias durante o verão. O que deveria ser um local de contemplação, descanso e contato com a natureza torna-se, muitas vezes, um palco de poluição sonora agressiva.


O uso de caixas de som de maneira descomedida e invasiva revela uma profunda lacuna na nossa educação estética e civilizatória.


Quando ritmos baseados em "batidões" e letras de baixo calão são impostos coletivamente em volumes ensurdecedores, não presenciamos apenas um desrespeito ao espaço alheio. Estamos diante da manifestação de um espírito desregulado.


Tais comportamentos confirmam a tese clássica: estímulos puramente carnais e desprovidos de ordem conectam o indivíduo ao seu lado mais atávico, impedindo a elevação da consciência e a harmonia social.


Sob a ótica platônica, a decadência cultural moderna pode ser compreendida através do consumo musical. Pelas músicas que uma pessoa escolhe ouvir — e, principalmente, pela forma como ela as impõe aos outros — podemos deduzir traços claros de sua formação:


  • Capacidade Cognitiva: A complexidade musical estimula o raciocínio; o ritmo puramente repetitivo tende a adormecê-lo.

  • Comportamento Social: O respeito ao silêncio e ao espaço sonoro do outro é um termômetro de civilidade.

  • Formação de Caráter: O gosto pelo banal ou pelo transcendente revela as inclinações mais profundas do indivíduo.


Diante desse cenário, todos nós deveríamos dedicar um tempo para praticar a escuta ativa. Assim como selecionamos criteriosamente um filme ou um livro, deveríamos ouvir música de modo consciente e analítico, buscando entender o contexto e a mensagem das composições.


Faça uma breve reflexão sobre o seu ambiente sonoro:


  • O que você e sua família ouvem (ativa ou passivamente) no dia a dia?

  • Essas escolhas inclinam-se para o banal ou elevam o pensamento?

  • O som que você consome embrutece seus sentidos ou o conduz ao transcendente?


Em última análise, é imperativo compreender que as músicas que permitimos entrar em nossos ouvidos não morrem no tímpano; elas penetram e afetam diretamente a nossa alma.


Uma vez que a alma é tocada, ela passa a direcionar nossas ações no mundo, e essas ações, quando repetidas, consolidam-se em nossos hábitos diários. São esses hábitos que, silenciosamente, moldam o nosso caráter, esculpindo quem realmente somos.


Por fim, é o nosso caráter que dita o rumo da nossa existência, tornando-se, inevitavelmente, o nosso próprio destino.



 
 
 

Comentários


"Educar sem distorcer, informar sem enganar, instruir sem politizar".
  • Spotify
  • Whatsapp
  • Youtube
  • Instagram
  • Facebook

© Todos os direitos reservados

bottom of page