De Platão ao "Batidão": O que o som das praias revela sobre nossa civilização...
- Roger da Luz
- 2 de jan.
- 3 min de leitura

A relação entre a música e a inteligência humana não é um tema novo; na verdade, é uma das discussões mais ancestrais da nossa cultura.
Se pararmos para analisar o impacto dos sons em nossa psique, perceberemos que a música é muito mais do que um simples entretenimento: ela é uma ferramenta de construção — ou de erosão — do caráter humano.
Platão, um dos pilares do pensamento ocidental, deixou um alerta que atravessa os milênios:
“A música é o meio mais poderoso do que qualquer outro, porque o ritmo e a harmonia têm sua sede na alma. Ela enriquece esta última, confere-lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação.”
Para os filósofos da Grécia Antiga, como Platão e Aristóteles, a educação ideal repousava sobre dois elementos fundamentais: a ginástica para o corpo e a música para o espírito.
Em sua obra A República, Platão defendia que o equilíbrio estrito entre esses dois pilares evitava que o indivíduo se tornasse excessivamente bruto ou excessivamente sensível. Para eles, a música não era um acessório, mas o alicerce da ética.

É sintomático — e ao mesmo tempo preocupante — perceber que as tendências musicais rejeitadas por Platão em seu tempo são exatamente as que dominam o nosso.
Ele alertava contra ritmos associados a ritos sensualizados e desregrados, por entender seu efeito embrutecedor sobre a alma.
Hoje, vemos esse fenômeno materializado de forma caótica em nossas praias durante o verão. O que deveria ser um local de contemplação, descanso e contato com a natureza torna-se, muitas vezes, um palco de poluição sonora agressiva.
O uso de caixas de som de maneira descomedida e invasiva revela uma profunda lacuna na nossa educação estética e civilizatória.
Quando ritmos baseados em "batidões" e letras de baixo calão são impostos coletivamente em volumes ensurdecedores, não presenciamos apenas um desrespeito ao espaço alheio. Estamos diante da manifestação de um espírito desregulado.
Tais comportamentos confirmam a tese clássica: estímulos puramente carnais e desprovidos de ordem conectam o indivíduo ao seu lado mais atávico, impedindo a elevação da consciência e a harmonia social.

Sob a ótica platônica, a decadência cultural moderna pode ser compreendida através do consumo musical. Pelas músicas que uma pessoa escolhe ouvir — e, principalmente, pela forma como ela as impõe aos outros — podemos deduzir traços claros de sua formação:
Capacidade Cognitiva: A complexidade musical estimula o raciocínio; o ritmo puramente repetitivo tende a adormecê-lo.
Comportamento Social: O respeito ao silêncio e ao espaço sonoro do outro é um termômetro de civilidade.
Formação de Caráter: O gosto pelo banal ou pelo transcendente revela as inclinações mais profundas do indivíduo.
Diante desse cenário, todos nós deveríamos dedicar um tempo para praticar a escuta ativa. Assim como selecionamos criteriosamente um filme ou um livro, deveríamos ouvir música de modo consciente e analítico, buscando entender o contexto e a mensagem das composições.

Faça uma breve reflexão sobre o seu ambiente sonoro:
O que você e sua família ouvem (ativa ou passivamente) no dia a dia?
Essas escolhas inclinam-se para o banal ou elevam o pensamento?
O som que você consome embrutece seus sentidos ou o conduz ao transcendente?
Em última análise, é imperativo compreender que as músicas que permitimos entrar em nossos ouvidos não morrem no tímpano; elas penetram e afetam diretamente a nossa alma.
Uma vez que a alma é tocada, ela passa a direcionar nossas ações no mundo, e essas ações, quando repetidas, consolidam-se em nossos hábitos diários. São esses hábitos que, silenciosamente, moldam o nosso caráter, esculpindo quem realmente somos.
Por fim, é o nosso caráter que dita o rumo da nossa existência, tornando-se, inevitavelmente, o nosso próprio destino.





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