O Cavalo e a Virtude: Lições na mala de garupa...
- Roger da Luz
- há 4 dias
- 2 min de leitura

Nos meses de janeiro, as férias me permitem estar mais presente no "mundo do cavalo". Quem me conhece há mais tempo sabe que esta é uma paixão antiga.
O cavalo é, comprovadamente, um animal de muita sabedoria; não é à toa que diversos tipos de terapias assistidas por equinos têm ganhado destaque.
Nesses momentos, aproveito o silêncio da zona rural de Porto Alegre para colocar minhas leituras em dia. É comum eu sair a cavalo levando um livro na mala de garupa.

Saio sem pressa, encontro uma sombra próxima ao pasto, ato o animal, sento-me no pelego e abro as páginas, entre um parágrafo e outro me ponho a admirar o cenário. Para mim, é um ritual terapêutico.
Em um desses dias, abri o Manual de Epicteto e me deparei com uma lição que parecia escrita sob medida para aquele momento:
"Não te orgulhes de uma qualidade superior que não é tua. Seria admissível se o cavalo se orgulhasse dizendo 'Eu sou belo'; quando tu, porém, te orgulhas dizendo: 'Possuo um belo cavalo', podes crer que estás te orgulhando de um bem do cavalo."
Nós, gaúchos, por tradição, temos muito orgulho da nossa terra, da nossa cultura e da beleza do nosso estado.

Orgulhamo-nos do arreio de prata, da marca na paleta ou da estampa do animal que encilhamos. Mas, como o filósofo provoca: se a beleza é do cavalo, o que sobra para o homem?
O orgulho de um bem alheio é fumaça que o vento espalha. Se o destino nos tirasse as posses, o que restaria da nossa essência?
Epicteto nos oferece uma reflexão: nossa única propriedade real é a nossa consciência e o emprego das nossas ideias. O cavalo cumpre sua natureza sendo belo; nós cumprimos a nossa ao buscar a evolução da consciência, ao procurar pela sabedoria.
O valor real não está em "possuir a estampa", mas em cultivar as virtudes que a vida nos exige. O orgulho legítimo nasce quando nossas ideias caminham em consonância com a natureza.
A beleza do cavalo pertence à natureza e à terra. A nossa beleza — a nossa verdadeira riqueza — reside na consciência, no caráter que esculpimos a cada decisão e na forma como conduzimos nossa própria existência, diante da vida.





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